Que tudo dê certo

Imagem 0035 - palito picole ficar depe laboratorioO primeiro semestre de 2014 será o meu segundo semestre de faculdade. Estou nervosa como se fosse a primeira vez que eu entrasse na faculdade. Semestre passado eu fiz besteira, não porque eu quis, mas porque aconteceu, e estou com medo de que aconteça novamente.

Mudei-me para São Paulo em Maio de 2010 e não sabia o que eu queria fazer de faculdade, tinha passado por muita coisa ruim e estava desorientada. A única coisa que eu sabia que teria que fazer para não continuar na casa dos meus pais, era trabalhar e me estabilizar para não precisar pedir dinheiro para ele. Assim eu fiz, e passei até o final de 2010 trabalhando, quando eu decidi quais os caminhos que eu iria percorrer.

Em 2011 eu entrei em um cursinho pré-vestibular, tinha decidido que Arquitetura e Urbanismo não iria dar certo e escolhi Engenharia Civil, fiquei até Junho no cursinho e, por conta de mais problemas, no setor amoroso dessa vez, abandonei o cursinho. Entrei em depressão mais uma vez, me afastei pelo INSS, voltei para Minas Gerais, não conseguia estudar, foi o ó.

Aos poucos fui me recuperando em 2012 conheci o W., larguei o emprego e prestei ENEM, fomos morar juntos. Em 2013 começamos a fazer cursinho pré-vestibular juntos. Então foi uma mescla de problemas financeiros e mais um resquício de depressão, larguei o cursinho pela segunda vez, me sentia derrotada.

No entanto, em 2012, apesar dos pesares eu estudei quando estava recebendo dinheiro através do Seguro Desemprego e fui razoavelmente bem no ENEM, tirei 717. Não consegui passar no começo do ano para Engenharia Civil, voltei a trabalhar e em Julho eu passei para Engenharia de Produção. Não queria fazer, mas o W. me incentivou a ir fazer a matrícula e ir ver pelo menos como era, já que é Federal e eu não iria pagar nada por isso mesmo.

Fui, fiz e gostei. Ainda quero a Engenharia Civil, mas a Engenharia de Produção é bem legal, ainda mais no IFSP do Campus São Paulo que é muito voltada para a área de Mecânica. Só que eu comecei a entrar em depressão de novo, porque não estava dando conta de trabalhar e estudar. Larguei o emprego novamente com todo o apoio do W., mas o estrago já estava feito. Não consegui recuperar a matéria perdida, comecei a ficar triste, afundei em várias provas e perdi prazos de trabalhos, não queria mais ir para as aulas. Juntou com a situação de pouco dinheiro, e quase não ter roupas para ir para a faculdade.

Quando eu digo pouca roupa, é pouca roupa mesmo! Tenho uma única calça jeans e duas blusas de moletom, e para o frio que faz em São Paulo de manhã, na época do inverno, mais o IFSP que tem as salas de aulas geladas no inverno, não dá pra nada. Mais os materiais de desenho, os livros caríssimos. Meus colegas de sala me chamando para ir tomar uma cerveja ou assistir um filme no cinema do Shopping ali perto. Não podia com nada disso.

E eu quis fazer muita coisa, aulas de alemão, participar do Diretório Acadêmico, colocaram-me como representante de sala (e eu aceitei) e fazer mais 10 disciplinas em que todos os professores exigem muito, foi a minha perdição. No final de Outubro já não conseguia ir mais, deixei todo mundo da minha sala na mão (já que eu era representante). Eu recebia auxílio financeiro da instituição e me sentia muito mal recebê-lo sem comparecer a faculdade.

Tudo começou a virar uma bola de neve e eu me escondi, morta de vergonha, por não ter dado conta de uma coisa que eu tanto queria. Se eu tivesse passado em todas as disciplinas, poderia pedir transferência interna para o curso de Engenharia Civil, que eu tanto quero, as matérias até o terceiro semestre são basicamente as mesmas.

Entrei em depressão profunda não sei pela qual vez, passava os dias chorando, dormindo e comendo. Só não fui jubilada da faculdade porque eu escrevi um e-mail enorme para a professora de desenho, explicando a minha situação e digitalizei os desenhos que eu tinha feito, ela me passou com 6,5. De 10 matérias fui reprovada em 9.

Passei as férias em Minas Gerais, na casa dos meus pais, e meio que me recuperei. Estou um pouco mais confiante de que posso recuperar tudo isso, o W., continua me apoiando (às vezes, tenho medo dele se cansar de mim e da minha depressão e me deixar). O blog tem me ajudado muito com isso também, escrever, expor o que eu sinto, às vezes leio o que eu escrevi e encontro soluções.

Mas ainda assim, estou com muita vergonha de encarar os meus colegas e responder perguntas. Por isso do nervosismo, os deixei na mão, não gosto de falhar com essas coisas, mas não posso me culpar por causa da minha doença. Depressão não se cura, aprende-se a conviver com ela e eu estou tentando. Tenho que enfrentar, não é mesmo? Amanhã começam as minhas aulas, eu não consegui dormir essa madrugada e vou virada mesmo. Quero que ninguém me note, que ninguém ligue para mim, quero ir, assistir as aulas e voltar pra casa. Me desejem sorte?

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Garota complexada

Imagem 0033 - vestido formatura azulDemorei muito tempo para começar gostar de roupas, maquiagens, acessórios, moda e afins.

Tímida, complexada, antipática, rude e grossa, acima do peso, unhas roídas até o toco, cabelo sem corte e preso em um rabo alto, sempre de calça de moletom e uma camiseta bem larga, que não me apertasse, não queria que ninguém visse as dobras da minha barriga. O último vestido que eu tive nessa época foi aos oito anos, cor de rosa de poá branco, da Lilica Ripilica, tinha um broche da ratinha no peito, e a última saia, do Piu-piu, que deixou de servir aos doze anos. A única bermuda que eu tinha era da escola, que também deixei de usar na mesma época que a saia deixou de servir.

Totalmente complexada dos 12 até os 17 anos. Tinha vergonha, tinha nojo do meu corpo. Todas as meninas que eu conhecia eram magras e mostravam a barriga sequinha, shorts curtos, já se depilavam e usavam maquiagem.

Por causa de todo aquele desconforto que eu sentia aboli as Barbies e todas as outras coisas de menina da minha vida. Fiz com que meu cérebro associasse que comprar roupas era coisas de menininha fresca e se maquiar coisa de piranha. Escondi-me atrás de livros, atrás do computador, do vídeo-game e dos estudos. Não me lembro de gostar de mais nada.

Vocês podem estar se perguntando onde estava a minha mãe numa hora dessas. Ela estava em casa, junto comigo, sempre passando seu batom, seu rímel, e seus 612 cremes antes de dormir. Nunca me ofereceu e eu nunca pedi, a vergonha me matava. Ouvi uma vez, conversando sobre isso com a minha mãe, que eu era madura e centrada demais para idade, tanto que ela não precisava se preocupar comigo.

Eu fiz algumas coisas por mim, sempre fiz escondido, sempre com medo de que alguém descobrisse, como se fosse errado. Tirar os pelinhos do meio da sobrancelha, roubar o barbeador do meu pai para raspar as pernas, levar a tesoura para o banheiro escondido para cortar os pelos pubianos. Depilação é uma coisa seríssima para qualquer menina de 12 ou 13 anos, toda mãe deveria incentivar a filha a fazer, ela não é mais criança, é tão importante quanto falar de sexo. As meninas riam de mim na escola porque eu tinha pelos demais na perna. Desde então, não importava a temperatura, eu estava de calça. Meninas gordas e feias não usam shortinhos ou saia.

Quando eu comecei a trabalhar, com 16 anos, fui à manicure pela primeira vez, tinha uma festa no dia, minha primeira festa de adolescente que eu tomei coragem para ir. Não queria nada chamativo, fiz francesinha bem clarinha e margaridinhas brancas delicadas nos dedões, só que a minha mãe viu, ela deu risada e tirou muito com a minha cara, ela e o meu pai: “A Cassie está apaixonada, arrumou namorado, fez até as unhas!”. Ela não me disse nenhuma vez se tinha gostado ou se estava bonito. Fiquei claustrofóbica de tanta vergonha. Não fui à festa. Tirei o esmalte no mesmo dia, me sentia patética.

Pode parecer boçal, mas eu choro quando eu me lembro disso. Mesmo hoje sabendo que os meus pais são assim, fanfarrões e que minha mãe não elogiou porque ela é distraída por natureza. Hoje, aos 26 anos é fácil ignorar uma brincadeira assim, é fácil entra na brincadeira e retrucar com um: “Mãe, não é um namorado, são dois!” ou então “Mãe, é namorada, sou lésbica!” ou então pra arrebentar “Mãe, estou grávida!”. Pra uma adolescente complexada de 16 anos é muito difícil, eu não tinha nem um décimo de maturidade que minha mãe achava que eu tinha.

Outro episódio com o mesmo final aconteceu quando comprei um lápis preto delineador e pintei os olhos.

Não fui à minha formatura da oitava série, mas no terceiro ano do Ensino Médio não teve escapatória. Ganhei um vestido (esse da foto, que ainda tenho guardado, e tirei essa foto hoje). Ganhei um conjunto de sombra azul. Uma sandália de salto. Escova no cabelo. Manicure. Sentia-me envergonhada. Minha festa de formatura foi um lixo, meus pais passaram um pouco da conta com a bebida e fui eu quem limpou o vomito da minha mãe, que não é acostumada a beber, no banheiro de casa, depois da festa. Deveria ter sido o contrário.

Só melhorei quando fui morar sozinha. Perdi a virgindade depois de três meses em Viçosa e aprendi a beber. Isso não é tão importante comparado ao que eu precisava mesmo, só que veio junto no kit faça você mesmo “Aprendendo a Se Dar Valor”. Passei o terceiro ano do Ensino Médio fazendo dieta e exercícios, pesava 58 quilos, estava magra e me descobri bonita. Não tinha dinheiro para comprar todas as roupas que eu queria, mas às vezes, pra sair, pegava emprestado. A minha última lição foi quando usei bota de salto alto e cano longo até o joelho com uma minissaia, eu era linda e todo mundo achava o mesmo.

Eu usava minissaia, vestido, roupas que eram um pouco mais justas. Descobri que eu sabia me maquiar, de tanto que eu lia revistas Capricho e similares. Eu me sentia bonita, feliz, e viva. Descobri uma parte de quem eu era e de quem eu podia ser.

Hoje eu estou acima do peso e sei que nunca mais vou ser tão bonita como eu fui com 18 anos, mas foram lições tão valiosas, que mesmo acima do peso, tem dia que eu me olho no espelho e penso: “Você é foda!”.

Não sei como terminar esse texto, eu acordei meio pra baixo, minha mãe está meio estressada e acabei relembrando quando eu vi o colar que eu usei na fatídica formatura, que estava no meio das bonecas da minha irmã mais nova. Então fica assim, meio sem final.