Garota complexada

Imagem 0033 - vestido formatura azulDemorei muito tempo para começar gostar de roupas, maquiagens, acessórios, moda e afins.

Tímida, complexada, antipática, rude e grossa, acima do peso, unhas roídas até o toco, cabelo sem corte e preso em um rabo alto, sempre de calça de moletom e uma camiseta bem larga, que não me apertasse, não queria que ninguém visse as dobras da minha barriga. O último vestido que eu tive nessa época foi aos oito anos, cor de rosa de poá branco, da Lilica Ripilica, tinha um broche da ratinha no peito, e a última saia, do Piu-piu, que deixou de servir aos doze anos. A única bermuda que eu tinha era da escola, que também deixei de usar na mesma época que a saia deixou de servir.

Totalmente complexada dos 12 até os 17 anos. Tinha vergonha, tinha nojo do meu corpo. Todas as meninas que eu conhecia eram magras e mostravam a barriga sequinha, shorts curtos, já se depilavam e usavam maquiagem.

Por causa de todo aquele desconforto que eu sentia aboli as Barbies e todas as outras coisas de menina da minha vida. Fiz com que meu cérebro associasse que comprar roupas era coisas de menininha fresca e se maquiar coisa de piranha. Escondi-me atrás de livros, atrás do computador, do vídeo-game e dos estudos. Não me lembro de gostar de mais nada.

Vocês podem estar se perguntando onde estava a minha mãe numa hora dessas. Ela estava em casa, junto comigo, sempre passando seu batom, seu rímel, e seus 612 cremes antes de dormir. Nunca me ofereceu e eu nunca pedi, a vergonha me matava. Ouvi uma vez, conversando sobre isso com a minha mãe, que eu era madura e centrada demais para idade, tanto que ela não precisava se preocupar comigo.

Eu fiz algumas coisas por mim, sempre fiz escondido, sempre com medo de que alguém descobrisse, como se fosse errado. Tirar os pelinhos do meio da sobrancelha, roubar o barbeador do meu pai para raspar as pernas, levar a tesoura para o banheiro escondido para cortar os pelos pubianos. Depilação é uma coisa seríssima para qualquer menina de 12 ou 13 anos, toda mãe deveria incentivar a filha a fazer, ela não é mais criança, é tão importante quanto falar de sexo. As meninas riam de mim na escola porque eu tinha pelos demais na perna. Desde então, não importava a temperatura, eu estava de calça. Meninas gordas e feias não usam shortinhos ou saia.

Quando eu comecei a trabalhar, com 16 anos, fui à manicure pela primeira vez, tinha uma festa no dia, minha primeira festa de adolescente que eu tomei coragem para ir. Não queria nada chamativo, fiz francesinha bem clarinha e margaridinhas brancas delicadas nos dedões, só que a minha mãe viu, ela deu risada e tirou muito com a minha cara, ela e o meu pai: “A Cassie está apaixonada, arrumou namorado, fez até as unhas!”. Ela não me disse nenhuma vez se tinha gostado ou se estava bonito. Fiquei claustrofóbica de tanta vergonha. Não fui à festa. Tirei o esmalte no mesmo dia, me sentia patética.

Pode parecer boçal, mas eu choro quando eu me lembro disso. Mesmo hoje sabendo que os meus pais são assim, fanfarrões e que minha mãe não elogiou porque ela é distraída por natureza. Hoje, aos 26 anos é fácil ignorar uma brincadeira assim, é fácil entra na brincadeira e retrucar com um: “Mãe, não é um namorado, são dois!” ou então “Mãe, é namorada, sou lésbica!” ou então pra arrebentar “Mãe, estou grávida!”. Pra uma adolescente complexada de 16 anos é muito difícil, eu não tinha nem um décimo de maturidade que minha mãe achava que eu tinha.

Outro episódio com o mesmo final aconteceu quando comprei um lápis preto delineador e pintei os olhos.

Não fui à minha formatura da oitava série, mas no terceiro ano do Ensino Médio não teve escapatória. Ganhei um vestido (esse da foto, que ainda tenho guardado, e tirei essa foto hoje). Ganhei um conjunto de sombra azul. Uma sandália de salto. Escova no cabelo. Manicure. Sentia-me envergonhada. Minha festa de formatura foi um lixo, meus pais passaram um pouco da conta com a bebida e fui eu quem limpou o vomito da minha mãe, que não é acostumada a beber, no banheiro de casa, depois da festa. Deveria ter sido o contrário.

Só melhorei quando fui morar sozinha. Perdi a virgindade depois de três meses em Viçosa e aprendi a beber. Isso não é tão importante comparado ao que eu precisava mesmo, só que veio junto no kit faça você mesmo “Aprendendo a Se Dar Valor”. Passei o terceiro ano do Ensino Médio fazendo dieta e exercícios, pesava 58 quilos, estava magra e me descobri bonita. Não tinha dinheiro para comprar todas as roupas que eu queria, mas às vezes, pra sair, pegava emprestado. A minha última lição foi quando usei bota de salto alto e cano longo até o joelho com uma minissaia, eu era linda e todo mundo achava o mesmo.

Eu usava minissaia, vestido, roupas que eram um pouco mais justas. Descobri que eu sabia me maquiar, de tanto que eu lia revistas Capricho e similares. Eu me sentia bonita, feliz, e viva. Descobri uma parte de quem eu era e de quem eu podia ser.

Hoje eu estou acima do peso e sei que nunca mais vou ser tão bonita como eu fui com 18 anos, mas foram lições tão valiosas, que mesmo acima do peso, tem dia que eu me olho no espelho e penso: “Você é foda!”.

Não sei como terminar esse texto, eu acordei meio pra baixo, minha mãe está meio estressada e acabei relembrando quando eu vi o colar que eu usei na fatídica formatura, que estava no meio das bonecas da minha irmã mais nova. Então fica assim, meio sem final.

Quero voltar

Imagem 0020 - igreja, ita, ceu, pracaÉ sempre estranho ir passar um tempo na casa dos meus pais, em Minas Gerais. Toda vez que eu volto lembro-me de toda a angústia, frustrações e da ânsia em querer sair de casa.

Minha adolescência foi complicada, não que eu não seja complicada hoje, talvez até mais. Rs. Eu era totalmente fechada, não saia para festas, não bebia, não tinha namorado, era bv, não gostava de maquiagens e de roupas. Era chata, muito chata. Para mim, todos os colegas da escola eram infantis e estúpidos, ninguém prestava.

Eu me achava feia, muito feia, não tinha autoestima e não gostava de mim. O pior é que eu não conseguia falar disso com ninguém. Acredito, sinceramente, que a raiz da minha depressão está nos meus 13 anos, quando mudei para Ita. Não me adaptei a nova escola, tinha saudades dos meus amigos e de todo o movimento de São Paulo.

A minha vida se resumia em estudar, ler, fazer algum tipo de artesanato, jogar vídeo game e mexer no computador. Nem de música eu gostava, fui começar a ouvir Legião Urbana, Engenheiros do Hawaii e AC/DC quando eu tinha 17 anos. Também não tinha Internet em casa, matei muita aula já (mesmo sendo CDF) para ficar em lan houses.

Meus pais não são ruins, muito pelo contrário, não sei o que eu faria sem eles. O único defeito deles é que eles são humanos e erram de vez em quando. Rs. Tudo o que eu posso reclamar deles na minha educação e na nossa convivência, eles estão dando altas bolas dentro com a minha irmã mais nova. Tenho certeza de que a minha mãe leu todos os meus diários (tenho diários dos 11 aos 19 anos), e por isso ela sabe exatamente o que foi que me deixou triste, magoada e assim tenta não fazer o mesmo com a A.

E toda vez que eu vou pra lá, toda vez, pode ser para passar um fim de semana, quinze dias ou um mês, eu fico nadando nesses pensamentos, revirando, procurando alguma coisa não definida. Fico angustiada, quero ir embora logo, voltar para a minha casinha, para a minha rotina. E hoje é só o primeiro dia… vou voltar dia 3 ou 4.

Tudo lá na casa dos meus pais é gostoso. A casa grande, a piscina, as cachorrinhas, as longas conversas com o meu pai, o ar sem poluição, o silêncio a noite, o sino da Igreja batendo de 15 em 15 minutos, a comida da minha mãe, sentar ao lado dela enquanto ela costura e ficar tagarelando e, principalmente, a companhia dos meus irmãos, que as vezes sinto-me sufocar de tanta saudades.

Só que a rotina não é a minha, não consigo ficar no silêncio por mais de 10 minutos, minha mãe briga comigo toda vez que eu compro algo, as coisas não estão do meu jeito, são meio largadas. Família: ruim com ela e muito pior sem ela. E quando as coisas tem que ser mais largadas, mais leves, levadas mais na esportiva, elas não são.

Gostaria muito de não sentir essas coisas, de não ser tão ranzinza, mas é que eu vejo tanta coisa errada. Gostaria de não ser tão crítica, tão chata e tão parecida com o meu pai. Mas não sei como mudar isso,nem como desligar, só por cinco minutos, os pensamentos em minha cabeça.

Merda de Natal

Imagem 0013 - arvore de natal enfeitesMesmo com o meu namorado vindo passar o Natal comigo, foi tudo uma merda. Meus dias aqui em Ita não tem sido dos melhores, não vejo a hora de voltar para São Paulo. Talvez eu tenha dado azar do Natal cair bem no meu pior dia da TPM, talvez ele só tenha sido ruim mesmo, como todos os últimos.

Pedi quinhentas vezes pra minha mãe o refrigerante Cibal e duas latinhas de Brahma ou Skol. Minha mãe me trás um tal de Taí e Bavaria. Não gostei quando vi o refrigerante e morri duas vezes quando eu vi a cerveja.

Não sou fresca, nem nada do tipo, mas foi juntando um monte de coisinhas, sabe? Meus pais brigaram o dia todo por causa da ceia e do almoço de hoje. Teve encrenca quando eu quis montar uma playlist que agradasse todos os ouvidos presentes, meu pai não deixou: “Minha casa e eu escuto o que eu quiser!”.

Não conseguia parar cinco minutos para conversar e dar atenção para o W.

Ajudei minha mãe em tudo que eu pude, quase uma escrava. Arrumei e faxinei a casa inteirinha no dia anterior, piquei 980 frutas da salada de frutas, fui ao supermercado com ela, fiz o salpicão de frango. Meu irmão e a família Buscapé dele chegaram, nem banho eu tinha tomado. E o que aconteceu? A minha cunhada lavou a louça duas vezes e virou a santa lá de casa. Fiquei com ciúmes, fiquei mesmo, eu quem fiz tudo e ajudei com tudo.

Sem contar a falta de educação dos meus sobrinhos postiços. Num geral, eu amo crianças, mas aqueles dois… nunca vi tanta malcriação junta! Não pediam licença para sair da mesa, separaram um monte de coisas no prato porque não comiam, chegaram e não falaram “oi” e foram embora sem dizer “tchau”, sempre gritando, não respondiam o que era perguntado para eles e os dois sempre de cara amarrada.

Meu pai não parava de reclamar da comida.

Esquecemo-nos de acender as luzes da árvore. Ninguém disse “Feliz Natal”. Não teve troca de presentes.

Nem meu namorado conseguiu me animar. Dormi chorando. Não quero nem ver como vai ser o Ano Novo. Juro que meus filhos nunca terão um Natal assim.

Aqueles Natais

Imagem 0012 - papai noel pelucia enfeiteEstou sabendo que os meus Natais nunca mais vão ser os mesmos da minha infância, quando os meus avós maternos eram vivos: felizes como comercial de margarina.

Aquela árvore gigante, que batia até o teto, com enfeites feitos pela minha própria avó. O pisca-pisca colorido e antigo era como vidrinhos em forma de arame farpado, eu já tive a infelicidade de pisar em um daqueles, com certeza mil vezes pior do que pisar em uma peça de Lego. Ela ficava no canto da enorme sala de teto de madeira, então não podia olhar atrás da árvore, porque ela estava pelada! Inversamente proporcional, embaixo dela os presentes iam se esparramando, mas como coração de mãe sempre cabia mais um, conforme a família ia chegando.

Também havia o brinquedo de Papai Noel que minha avó ganhou da tia Sa. em algum outro Natal passado. Ele soprava bolinhas de sabão enquanto andava, desengonçado e amedrontador como só um brinquedo antigo pode ser, e pra ajudar soltava uns “ho-ho-ho” muito macabros quando a pilha estava acabando.

Meu avô sempre, sem falha em nenhum dos anos, colocava seus vinis com músicas natalinas no seu Stereo System Toca Discos da CCE, sentava no sofá da sala e ali ficava, se deleitando com a família dele, sempre com um meio sorriso no rosto. (Nada acabava com o espírito natalino da minha família naquela época, nem mesmo uma enchente que houve em um dos anos.) De repente meu avô sumia e quem aparecia? Ahn, um pedaço de Torta Alemã se você adivinhar! Muito fácil, né?

O meu avô Papai Noel ia chamando a gente e ia distribuindo os presentes, perguntava se a gente tinha se comportado, fazia a gente beijar o bochecha dele. Quando eu tinha lá pros meus três ou quatro anos ele levou a minha chupeta… Era bom, putz, como era bom!

Minhas três tias reunidas e seus presentes combinando, para que uma não ficasse com inveja da outra; Todos meus primos reunidos e o M.A. olhando de cara feia para o G. porque ele sempre ganhava mais presentes (não era o favorito, mas a Tia Sa. levava TODOS os presentes que ele ganhava da família paterna dele, aí a competição ficava meio injusta mesmo, hahaha!); o G. podia ganhar mais presentes mas o melhor presente da noite era o meu, não era o mais caro nem o maior, mas era sempre diferente e todos os primos ficavam doidois. Meus pais fugiam de comprar o arroz com feijão básico, não tinha boneca do ano, bicicleta… era sempre algo inovador. Foi ursinho de pelúcia que repetia tudo o que se falava (em 1990 era o top), foi um Bip-Bop, varinha de condão que piscava e tocava músicas. Ah! Ô época boa, o peito até dói de tantas saudades!

Meus avos maternos morreram e minha família teve mais uns dois ou três Natais forçados. Amanhã vai ser só meu pai, minha mãe, minha irmãzinha, meu irmão, a mulher e os dois enteados dele, meu namorido e eu. Apesar de tudo, estou esperançosa, gosto da minha família e acho que todo mundo está se esforçando para que dê tudo certo, até meu pai, aquele velho rabugento que eu amo.

Sobre me achar velha demais

Imagem 0007 - nascer do sol taboao da serraEu me acho velha demais para estar no segundo semestre de uma nova faculdade. Com 26 anos deveria ter terminado um mestrado, estar no estrangeiro fazendo algum projeto referente a minha área ou melhorando uma possível segunda, terceira ou quarta língua. Alguns dos meus colegas do Ensino Médio estão viajando academicamente – Munique, Barcelona, EUA e outros que não me recordo no momento. Todos eles já terminaram o Ensino Superior. E eu aqui, com uma faculdade que deixei pra trás aos quarenta minutos do segundo tempo, e nunca, sequer, andei de avião. Não, não me arrependo em ter largado a faculdade de Pedagogia, aquilo não me fazia bem, um outro dia eu falo exclusivamente sobre isso.

As pessoas insistem em dizer que eu sou nova, que existem muitas pessoas que começam a faculdade depois do casamento e filhos.

– Ahn, você não viu o caso daquele senhor que entrou na faculdade de medicina junto com o filho de dezoito anos? 

– Vi. 

– Então, você é muito nova, larga a mão de ser boba, você pode fazer quantas faculdades quiser! 

– É, pode ser. Valeu. 

Esse “valeu” sai sempre meio xôxo, por vontade de berrar e expressar todos os meus medos sobre esse tipo de situação e, ao mesmo tempo, tentar ser educada e não me estressar com alguém que nunca vai entender o meu ponto de vista ou o que eu sinto. Segunda circunstância, a pessoa é tão bem intencionada que eu não tenho coragem de acabar com a tentativa altruísta da pessoa de me dar uma injeçãozinha de ânimo.

O que me mata é não ter feito as coisas no tempo certo, não ter ouvido os meus pais quando eu tinha meus dezessete anos. Eu quero muito fazer Engenharia Civil e também tenho consciência que devido as minhas escolhas no passado, não me sobra outra alternativa, tenho que adiar os outros planos/sonhos da minha vida, como por exemplo, ser mãe. Não gostaria de ter minha primeira filha muito velha com trinta e todos poucos anos. Vida acadêmica ou filhos (não vou nem entrar no quesito econômico), para mim, isso parece ser árduo e penoso, não sei se é possível conciliar os dois, e eu gosto tanto de estudar. Todas as viagens, festas, seminários, noites em claro estudando ou terminando algum artigo, são coisas que eu realmente quero muito e preciso, sei que se eu não terminar pelo menos uma faculdade serei uma pessoa muito frustrada e amarga. E eu quero muito ser mãe também, aguentar birra de filho em shopping, chorar em uma apresentação de fim de ano da escolinha, sentir a saudades que a minha mãe diz que sentia quando íamos pra escola quando pequenos.

A única coisa que eu tenho certeza é que, se eu não conseguir ser uma pessoa realizada e feliz, meus futuros filhos também não conseguirão ser, eu seria aquele tipo de mãe que fode com tudo, sabe? Que não conseguiria brincar, imaginar e voltar a ser criança. Eu gosto de desafios, e sei que vou me dar bem nesse. Sei que daqui dez anos vou reler esse post e dar risada de toda essa insegurança. Sim, isso nada mais é do que insegurança.